Vozinha comunicava algo verdadeiramente refrescante! Comunicava o amor, a sorte de representar o seu país e o desejo de viver o momento, sem procurar as câmaras. Calhou que os holofotes acabaram por refletir o seu brilho e a sua voz tornou-se a mais bela campanha da sua nação, porque Vozinha reúne o que de melhor existe na essência cabo-verdiana.

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Foi em Atlanta, quase no arranque do Mundial e na estreia de Cabo Verde num palco maior, que o mundo, sem querer, escutou uma voz diferente. Essa voz soava como uma leve brisa que ecoava pela marulhada do arquipélago que representava. Esse som deu pelo nome de Vozinha e a sua camisola de cor amarela parecia vestir, ainda que de forma despretensiosa, a maior estrela de Cabo Verde.

Apesar da estreia arrebatadora de Josimar José Évora frente à atual campeã europeia, em que fez sete defesas, sem deixar entrar nenhum golo dos espanhóis e saindo com o troféu de melhor jogador da partida, não foi somente por aí que a sua voz conquistou o mundo. É que existem várias formas de comunicarmos, até nas funções que operamos, e a linguagem corporal de Vozinha comunicava algo verdadeiramente refrescante! Comunicava o amor, a sorte de representar o seu país e o desejo de viver o momento, sem procurar as câmaras. Calhou que os holofotes acabaram por refletir o seu brilho e a sua voz tornou-se a mais bela campanha da sua nação, porque Vozinha reúne o que de melhor existe na essência cabo-verdiana. Por isto, acredito que toda a gente se mobilizou para seguir Vozinha nas redes sociais depois do desafio lançado pela emissora portuguesa LiveMode TV e pela emissora brasileira CazéTV (também pertencente ao grupo LiveMode). Existe aqui um aspeto interessante. É que ambas as emissoras, apesar de pertencerem ao mesmo grupo, lançaram o mesmo desafio sem os seus comentadores combinarem o assunto.

Estranhamente, a sequência de sincronicidades não termina aqui. É interessante analisar como surge a alcunha de Vozinha. O Vozinha foi criado pelos avós enquanto os pais trabalhavam em Mindelo. Jogava futebol na rua com rapazes mais velhos e mais duros fisicamente. Enquanto miúdo, Josimar já era competitivo por natureza e não gostava de perder. Por isso, voltava para casa furioso. Os outros gozavam-no dizendo que ele ia queixar-se aos avozinhos, e surgiu daí o nome “Vozinha”. Curiosamente, ele próprio detestava a alcunha em criança, chegando a referir que o “deixava louco”, e só a adotou já enquanto jogador profissional, em Angola, porque havia lá outro jogador com o nome Josimar.

É aqui que encontramos algo intrigante. Nada o preparava para o duplo sentido linguístico da palavra, ou seja, a origem é avozinha (a avó), mas a palavra lê-se como voz pequena. O homem chamado “Vozinha” acabou por ser a voz que se fez ouvir. Curiosamente, em termos junguianos, chamamos a este evento de sincronicidade. Portanto, não uma coincidência decorativa, mas sim uma coincidência significativa.

Falando em questões junguianas, creio que Vozinha não encantou apenas pela sua simplicidade, humildade e sensatez. Mas porque Vozinha representa o improvável. Pois navegou um pequeno bote de pesca de um singelo arquipélago, onde as suas ilhas juntas perfazem cerca de quinhentos mil habitantes. Onde a pobreza e a dureza da vida se tornam um imperativo. Onde o tempo das oportunidades é um fio de navalha e mais curto do que noutras realidades. Foi dessa plataforma que Vozinha foi refinando o seu tom. Escalando modestamente desde campeonatos “esquecidos” da Moldávia, Chipre e Eslováquia, além de Portugal, onde mais recentemente envergou a camisola do Grupo Desportivo de Chaves. Ao longo de anos, foi conciliando o futebol com o ofício de eletricista. Talvez tenha sido essa profissão a produzir nele uma ligação ao fio-terra e, por isso, Vozinha não é o eterno jovem que voa alto e não aterra, é o homem que aos 40 aceitou e abraçou a sua limitação com sabedoria e encanto. Ele representa quase o antídoto da persona inflacionada. Aquela máscara social que todos somos seduzidos a lapidar com o máximo de eficiência e rendimento. A sensação que fica é que Vozinha tanto está satisfeito a competir ao mais alto nível, como a comer uma boa cachupa depois de uma pelada com os amigos.

Pintura "O Lamento por Ícaro", de Herbert James Draper: o corpo sem vida de Ícaro, de asas desfeitas, velado por ninfas junto às rochas à beira-mar.
The Lament for Icarus (1898)

Não obstante, Vozinha retrata também que nunca é tarde para brilharmos e chegarmos aos grandes palcos, conservando os melhores valores que um homem pode ter. Mantendo aquela máxima de que, se estivermos a fazer o correto, não precisamos de procurar o sucesso, porque é ele que nos procura. Daí o antídoto da máscara inflacionada, porque ele é o arqui-inimigo da figura centrada no rendimento que se lapida ao mais íntimo detalhe. Ele dá a sensação de que foi aquele homem que soube com sabedoria surfar as ondas que lhe chegavam à sua pequena terra natal em Mindelo. Pois nem sempre o mérito chega a águas tão distantes, porque a estrutura continua inacessível a determinadas pessoas. Quando falo de estrutura, quero dizer redes de observação, geografia, dinheiro e atavismos na análise do potencial. Em relação a esta última, falo diretamente de uma queixa evocada pelo próprio Vozinha, que admitia ter potencial, mas não era selecionado devido à sua falta de estatura.

E talvez seja essa a lição mais bonita que Vozinha nos deixa. A ideia de que o futebol é de todos e não só para os grandes nomes. Os diminutivos servem o contraste da grandeza, num jogo em que os grandes também se tornam pequenos e por vezes os pequenos se tornam grandes. Também nos ensina que, no futebol, não saem apenas vencedores aqueles que vencem os jogos, mas sim os que, apesar da derrota, conquistam os nossos corações pelos valores certos. Vozinha nunca precisou de falar mais alto do que os outros. Bastou-lhe manter o tom terno com que sempre comunicou, e foi o próprio mundo, cansado de tanto barulho, que se calou para o escutar. Foi essa a brisa que soprou de Mindelo até aos grandes palcos e que continua a ecoar em todos os corações que, como ele, teimam em brilhar sem trair aquilo que são.

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João Ereiras Vedor

Fundador e CEO da Psingular

Psicólogo clínico e responsável pela visão estratégica da Psingular, projeto dedicado à articulação entre clínica, sistemas humanos, formação e desenvolvimento organizacional

Dr. João Ereiras Vedor numa fotografia a preto e branco em tom intelectual a olhar para cima
João Ereiras Vedor

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