Bad Bunny acaba também por comunicar o vazio. Porque, para existir relação, é preciso haver valorização do outro, e não há valorização do outro numa sala de espelhos voltados para egos narcisistas. É por isso que é impressionante ver um estádio cheio completamente vazio.
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Não, Benito Antonio Martínez Ocasio, mais conhecido como Bad Bunny, não é machista. É um génio que aprendeu a provocar as massas.
Ao contrário das reações que surgiram em torno da polémica de La Casita, onde várias mulheres bonitas foram escolhidas, aparentemente a dedo, para subirem à plataforma VIP do concerto, defendo que todo aquele espalhafato não serve o machismo, mas sim uma crítica mais ampla à gentrificação.
A definição estreita de gentrificação refere-se a um processo de transformação urbana em que bairros históricos ou populares são reabilitados, atraindo novas classes de maior rendimento e o comércio de luxo. Contudo, num olhar mais amplo, a gentrificação não se reduz à substituição da alma do povo porto-riquenho, ou do povo português nas zonas típicas da ribeira do Porto, de Alfama ou da Mouraria. Tem que ver com um processo de mudança na nossa própria alma e na forma como convivemos com a realidade.
Bad Bunny sabe que a gentrificação não pertence apenas às elites, mas também a cada um de nós, porque, cada vez mais, a nossa mentalidade está colada ao luxo e ao rendimento. Foi assim que ele conseguiu transformar a casinha cor-de-rosa, originalmente um símbolo de resistência, numa espécie de camarote VIP, ou montra, onde todos e todas querem participar. Vimos o deleite da atriz Rita Pereira ao ser selecionada, prometendo que o seu único desejo era representar bem Portugal. Tal como Pierre Bourdieu explicaria, ser escolhido nunca é um gesto inocente. Está ligado ao capital social e comunica estatuto. Comunica distinção, pertença ao grupo dos visíveis, dos desejáveis e dos legitimados.
Bad Bunny é, neste ponto, triunfante a apresentar o narcisismo. As pessoas selecionadas para La Casita não podem levar telemóvel, mas é impressionante a forma como se esticam e torcem o pescoço à procura das câmaras que as imortalizem. No fundo, La Casita transforma-se numa casa de espelhos, onde ninguém investe no outro, apenas em si mesmo através do olhar alheio.
E é desta forma que Bad Bunny acaba também por comunicar o vazio. Porque, para existir relação, é preciso haver valorização do outro, e não há valorização do outro numa sala de espelhos voltados para egos narcisistas. É por isso que é impressionante ver um estádio cheio completamente vazio.
Byung-Chul Han explicaria este vazio de outra forma, falando da transparência total daquele espaço. Uma casa, por definição, é o lugar do íntimo, do oculto, do que não se mostra. La Casita é uma casa cuja única função é ser vista. A intimidade transformada em palco. O lar transformado em montra. O ritual comunitário transformado em conteúdo. E quando o ritual se torna conteúdo, estamos perante um sacrifício. O sacrifício da alma.
Por isso, na minha opinião, La Casita não é sobre machismo. É sobre a gentrificação da alma.
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João Ereiras Vedor
Fundador e CEO da Psingular
Psicólogo clínico e responsável pela visão estratégica da Psingular, projeto dedicado à articulação entre clínica, sistemas humanos, formação e desenvolvimento organizacional.

