Não há grande mérito em parecermos benevolentes quando essa benevolência nasce apenas da cobardia. A verdadeira virtude não está na ausência de força, mas na capacidade de a conter, orientar e colocar ao serviço de algo maior. Uma pessoa só é realmente pacífica quando também seria capaz de ferir, mas escolhe não o fazer.

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A agressividade tem sido profundamente mal interpretada. Na sociedade contemporânea, tende a ser vista como um traço tóxico, primitivo ou moralmente condenável, como se a evolução humana dependesse apenas de pensamento positivo, contenção emocional e reforço cultural. Mas essa visão apresenta pelo menos dois problemas. Por um lado, nega aspectos fundamentais da natureza humana. Por outro lado, torna-nos moralmente mais frágeis.

Não há grande mérito em parecermos benevolentes quando essa benevolência nasce apenas da cobardia. A verdadeira virtude não está na ausência de força, mas na capacidade de a conter, orientar e colocar ao serviço de algo maior. Uma pessoa só é realmente pacífica quando também seria capaz de ferir, mas escolhe não o fazer.

A agressividade faz parte da vida. Não pode ser simplesmente eliminada. Pode, isso sim, ser erradamente reprimida, deslocada ou transformada. E, quando não encontra uma via de integração saudável, tende a surgir de formas mais insidiosas. Conheço pessoas que se orgulham de nunca serem agressivas fisicamente, mas que se tornam profundamente destrutivas pela maledicência, pela inveja ou pelo veneno relacional. Por vezes, essa agressividade indirecta é ainda mais corrosiva do que a agressividade frontal.

Os mestres de artes marciais sabem isso bem. À medida que os seus discípulos evoluem tecnicamente, espera-se deles não mais impulsividade, mas mais autorregulação, mais discernimento e mais responsabilidade no uso da força.

A potência sem controlo representa perigo! Mas a ausência total de potência não é virtude. É fragilidade.

Jaak Panksepp, um dos nomes centrais da neurociência afectiva, observou que, em jovens mamíferos, a agressividade lúdica, como a brincadeira de luta, desempenha um papel importante no desenvolvimento. Quando essa dimensão era bloqueada, os animais apresentavam sinais de depressão, empobrecimento comportamental e menor envolvimento exploratório. A luta simbólica, quando enquadrada e regulada, não é apenas uma descarga. É aprendizagem.

Lembro-me de, em miúdo, os intervalos escolares serem muitas vezes pequenos cenários inspirados na WWE. A frase “Don’t try this at home” era provavelmente das mais ignoradas da altura. Mas, olhando para trás, havia ali qualquer coisa de formativo. Testavam-se limites, media-se a intensidade, calibrava-se o corpo, aprendia-se até onde se podia ir. Nem toda a agressividade é destrutiva. Em certas condições, participa no crescimento.

Curiosamente, alguns estudos sobre brincadeira física entre pais e filhos sugerem algo semelhante. Quando essa interação é calorosa, regulada e suficientemente firme, as crianças tendem a desenvolver melhor autocontrolo, maior sensibilidade aos limites e maior capacidade de modular a intensidade. Pelo contrário, quando falta esse espaço de confronto lúdico, pode surgir mais desorganização no uso da força e menos sensibilidade em relação ao outro.

Talvez o erro da nossa cultura esteja em confundir agressividade com violência. A violência é a falha da agressividade integrada. A agressividade, em si mesma, é energia de afirmação, defesa, diferenciação e avanço. Sem ela, não há carácter, não há criação, não há capacidade de dizer não, nem força para proteger aquilo que amamos.

Além disso, os dados são preocupantes. Os jovens procuram estabelecer cada vez menos relações, fazem menos sexo e vivem mais deprimidos. A agressividade não integrada torna-se autolesiva e, ao mesmo tempo, não prepara os jovens para a sociedade. Se pensarmos na vida emocional como uma fórmula, uma certa dose de agressividade, apurada pela curiosidade, pode dar ao jovem a assertividade suficiente para ir atrás dos seus sonhos e da sua amada. Sem isso, fica apático, perdido e frustrado.

Depois, há quem considere a bondade um antónimo da agressividade. Mas ser bom engloba a capacidade de ser vertical, de tomar decisões difíceis e, por vezes, pouco agradáveis para quem só pensa no imediato. Existem pessoas que, para livrar a sua pele, esquecem-se rapidamente das suas promessas. No entanto, líderes como Aragorn, em O Senhor dos Anéis, mostram outra via. Mesmo tendo vantagem em continuar com o exército dos mortos face ao maior inimigo de todos, escolhe libertá-los para cumprir a sua palavra, ficando vulnerável perante o inimigo. Pode haver quem considere essa decisão uma loucura, mas só um guerreiro verdadeiramente agressivo e experiente encontra a coragem para tal gesto.

Talvez esse seja um dos grandes erros do nosso tempo, não compreender que a agressividade, quando integrada, não nos torna mais brutos, mas mais inteiros. Não se trata de glorificar a violência, mas de reconhecer que sem agressividade não há afirmação, não há coragem, não há delimitação, não há protecção, não há criação. O problema nunca foi a agressividade em si. O problema é deixá-la sem forma, sem consciência e sem educação.

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João Ereiras Vedor

Fundador e CEO da Psingular

Psicólogo clínico e responsável pela visão estratégica da Psingular, projeto dedicado à articulação entre clínica, sistemas humanos, formação e desenvolvimento organizacional

Dr. João Ereiras Vedor numa fotografia a preto e branco em tom intelectual a olhar para cima
João Ereiras Vedor

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