João Ereiras Vedor
Partilho com enorme satisfação a publicação do artigo "Code Psychology: How Organic Codes Create Mind" na prestigiada Theory & Psychology (Sage), uma revista de referência internacional no pensamento teórico da psicologia.
Este artigo marca uma etapa de amadurecimento pessoal e intelectual. Marca também um posicionamento, em termos de honra, para aqueles que, intelectualmente, me antecederam com prestígio.
14/05/26
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Conheci a Code Biology por intermédio de alguém que me apresentou esta abordagem atraente, e confesso que não foi amor à primeira vista. A Code Biology afastava-se um pouco dos cânones daquilo que aprendemos na faculdade quanto à proposta de entendimento da biologia. Foi para mim desafiante mesclar a semiótica à biologia, embora não de forma inédita. Já em 2016 afirmava numa prova para a faculdade que o futuro do estudo da mente se resumia à biossemiótica. Porém, sempre senti os biossemióticos mais poéticos, e a Code Biology de Marcello Barbieri pretendia (e pretende) ser uma abordagem científica com uma base teórica e epistemológica sólida.

Em 2023, após a minha primeira conferência na Code Biology em Olomouc em 2022, tive a oportunidade de organizar, em Guimarães, a Nona
Conferência Internacional da Code Biology. Conjuntamente com um antigo colega, contámos com o excelente contributo do Eng. Ricardo Machado, do Centro de Computação Gráfica (CCG), e da sua fantástica equipa — incluindo a Mara, a quem deixo o meu particular obrigado — que não só engrandeceu o evento como contribuiu para toda a sua logística e burocracia. Galvanizei, na altura, a minha esposa e o meu irmão para pertencerem à secretaria, e a mim coube, essencialmente, o trabalho de anfitrião, à boa moda portuguesa, para organizar até os comes e bebes.
Foi a partir desse momento que tive a oportunidade de mergulhar mais atentamente no universo da Code Biology. Depois disso, surgiu a oportunidade de apoiar uns colegas, numa entrevista em Ferrara, o próprio Marcello Barbieri e de ouvir de mais perto a visão de um génio.

Acabei por ler praticamente todos os seus artigos e por começar a vislumbrar os alicerces de um projeto que há muito antecipava: o estabelecimento de uma ponte entre as correntes emergentes da neurociência e a psicologia analítica de Carl Jung. Sempre achei que Jung era mal interpretado, e que o seu génio era feito refém da esfera new age e esotérica.
O trabalho não ia ser fácil, mas o meu sonho já era antigo e remonta ao meu primeiro trabalho de investigação ainda na licenciatura em Psicologia na Universidade Católica Portuguesa, onde tentava perceber se o nosso cérebro estava "conectado" de modo a produzir a experiência religiosa. Essa meta-análise serviu como um primeiro passo para eu compreender o funcionamento complexo do universo simbólico e a forma como se relacionava com o funcionamento cerebral.
Essas leituras originais serviram de base a um pensamento que amadureceu entre outras publicações, como:
- Revisiting Carl Jung's archetype theory: a psychobiological approach — https://doi.org/10.1016/j.biosystems.2023.105059
- Dreams as a code language — https://doi.org/10.1016/j.biosystems.2025.105586
O primeiro tenta estabelecer o chão para que compreendamos que é possível conceptualizar o termo arquétipo com base na evidência científica que nos vai sendo apresentada. Considero essencial esse trabalho arqueológico e classificatório — no qual procurei escavar o conceito junguiano de arquétipo, propor uma taxonomia (estrutural, regulatória, representacional) e ancorá-la em evidências de epigenética, genómica e neurognose. O foco era responder à questão: o que são os arquétipos biologicamente?
Neste novo artigo, a mudança de perspetiva leva-me a uma visão mais ampla do arquétipo, agora entendido como organizador do psiquismo enquanto tal.

Contudo, o objeto do problema mantém-se: a questão do adaptador. Em 2023, evocava mecanismos de mediação entre domínios; no presente artigo, isso torna-se o conceito central em torno do qual tudo se organiza.
Esta mudança de paradigma abraça um problema epistemológico muito mais geral, que a psicologia enfrenta há mais de um século:
- A separação entre mente e corpo;
- O conflito entre reducionismo (em que a mente é mera química cerebral) e holismo (em que a mente é totalidade irredutível);
- A oposição entre o que é universal e filogenético (o que partilhamos enquanto espécie) e o que é subjetivo(aquilo que cada um, individualmente, é).
Neste artigo, parto do princípio de que a insolubilidade destes problemas não está na sua incompatibilidade, mas na forma como os estamos a formular.
Ao mesmo tempo, este artigo situa-se no Zeitgeist atual — no renascimento dos debates cibernéticos, funcionalistas e organicistas, movido pelo surgimento dos modelos de inteligência artificial mais desenvolvidos e pela metáfora que isso cria para a noção de código cerebral. A questão que se coloca, contudo, é: o que é, afinal, um código? O que podemos considerar código? É também a isso que procuro responder neste artigo. Mas, para não correr o risco de o situar numa linha demasiado abstrata, tento fazê-lo a partir do que sabemos hoje sobre o autismo. Proponho considerar o autismo como uma configuração distinta e evolutiva de adaptadores neuronais, que prefere uma vida orientada mais para sistemas do que para relações emocionais — em diálogo com muito do que se assiste na literatura de Simon Baron-Cohen e outros.
Agradeço a vossa atenção. Quem quiser saber mais sobre este trabalho pode contactar-me em joaoereirasvedor@psingular.pt ou aceder ao artigo em:
🔗 https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/09593543261445014

João Ereiras Vedor
Fundador e CEO da Psingular
Psicólogo clínico e responsável pela visão estratégica da Psingular, projeto dedicado à articulação entre clínica, sistemas humanos, formação e desenvolvimento organizacional.
